DEMITIZAÇÃO DA REVELAÇÃO E A TEOLOGIA EXISTENCIALISTA
A TEOLOGIA E SEUS INSTRUMENTOS: A HISTÓRIA A HERMENÊUTICA E A FILOSOFIA
Um dos teólogos mais influentes do século XX, Rudolf Bultmann (1884-1976) se destacou com seus escritos históricos e interpretativos sobre o Novo Testamento. Ele foi, durante muitos anos, catedrático da Universidade de Marburg, na Alemanha.
Segundo Bultmann, a tarefa da teologia é a de descobrir um “conceptualismo”, cujos termos pudessem aproximar a mensagem do Novo Testamento a cosmovisão moderna. Em correspondência pessoal, ele sempre afirmou sua intenção proclamar uma mensagem contextualizada. Segundo ele, uma das funções essenciais da teologia de cada época é compreender o Kerygma, que é a mensagem revelada, e bem traduzi-lo, tornando-o atual para quem o escuta. Para ele, o teólogo deve valer-se da história, da hermenêutica e da filosofia. A História e a hermenêutica ajudarão a descobrir o núcleo central da mensagem cristã, enquanto a Filosofia permitirá exprimi-lo de maneira eficaz e inteligível para o homem moderno.
A História
Bultmann prestou homenagem a Harnack e seus colegas a devida homenagem de reconhecimento por ter introduzido o método da crítica histórica e ter defendido a tese incontestável de que o cristianismo é essencialmente um fenômeno histórico.
A história não percorre seu caminho constante e estabelecido pôr suas próprias leis, mas obtêm seu movimento e direção dos poderes sobrenaturais. Ela deve ser abordada com atitude e espírito existencial, pois a história não é um museu de documentos antigos que devesse ser visitado de maneira mais ou menos distraída, mas um conjunto de acontecimentos que interessam direta ou pessoalmente a cada um de nós. E só que os aborda com participação existencial pode compreendê-los.
Por isto, essa abordagem existencial é o princípio primeiro da filosofia bultmanniana da história. Este princípio diz que aquilo que interessa na história não são os personagens, mas as obras. “Colocando-se em sua perspectiva, a obra representa aquilo que eles verdadeiramente quiseram, aquilo pelo qual trabalharam. E é nessa perspectiva que eles se constituem em objeto da pesquisa histórica, desde que interrogar a história não consista em informar-se de modo neutro sobre os acontecimentos objetivamente verificáveis e pertencentes ao passado, mas sim consista em se preocupar com a questão de saber como nós, envolvidos no movimento da história, podemos alcançar a compreensão da nossa existência, ou seja, como podemos ser iluminados sobre as possibilidades e necessidades de nossa vontade”.
Um outro princípio fundamental da filosofia bultmanniana da história diz respeito à dificuldade de alcançar resultados seguros através da investigação histórica.
A aplicação dos três princípios expostos à vida de Jesus e ao Novo Testamento dá os seguintes resultados:
Do princípio da dificuldade de alcançar conclusões seguras através da investigação histórica deriva que “nós não podemos, por assim dizer, saber mais nada da vida e da personalidade de Jesus, seja porque as fontes cristãs não se interessaram por isso, seja porque não existem outras fontes sobre Jesus”.
Do princípio de que aquilo que conta na história não são os personagens, mas sim suas obras resultam o propósito de Bultmann de eliminar do estudo de Cristo todas as expressões “que o descrevem como um grande homem, um gênio, um herói”. Segundo ele, Jesus deve ser estudado com o mesmo critério com que se deve estudar todos os homens célebres, através de sua obra, pois sua atividade primordial consistiu em pregar.
Por último, do princípio de que não devemos abordar a história com espírito naturalista, mas sim com espírito existencial, deriva a conseqüência de que o ensinamento de Jesus não deve ser tomado como uma ponte para chegar à sua personalidade nem como um sistema de verdades gerais, um sistema de proposições que têm valor independentemente da situação concreta na qual se encontrava que as pronunciou. Para tanto, o ensinamento de Jesus deve ser considerado como proveniente da situação concreta de um homem que viveu em determinado tempo, como um ensinamento capaz de explicar a nossa existência situada no movimento, na insegurança e na decisão, e em condições de exprimir uma possibilidade de compreensão dessa nossa existência, uma tentativa para fazer brotar as possibilidades e exigências de nosso existir. “Por isso, quando nos encontramos diante das palavras de Jesus, não devemos criticá-las partindo de um sistema filosófico, em função de sua validade racional; ao contrário, elas devem vir ao nosso encontro como questões sobre o nosso modo de conceber nossa própria existência; isso pressupõe, bem entendido, que nos preocupemos pelo problema do nosso existir”.
O principal objetivo de Bultmann reside em mostrar que a essência da mensagem de Cristo está na Revelação desse novo modo de compreender o nosso existir. Ele identifica o anúncio da vinda do Reino de Deus e da salvação com o anúncio desse novo modo de existir, renúncia ao mundo e aceitação da vontade de Deus.
Bultmann crê que o Novo Testamento contém a Kerigma, mensagem salvadora de Cristo. A desmitologização consite em desnudar o mito do Novo Testamento e descobrir a Kerigma original. Toda a mensagem do Novo Testamento tem de ser repensada em categorias existenciais. E nisto o evangelho perde o seu valor e sua força, e passa a ser mais uma boa filosofia de vida.
Para Bultmann, o eu do homem, com efeito, a sua vida interior e a sua existência pessoal também estão além do mundo visível e do pensamento racional. Ele sustenta que o êxito do cristianismo deve-se à nova compreensão da existência humana pregada por Cristo. Por um lado, ele sustenta que a Revelação cristã tem caráter histórico e, por outro, nega que haja nela algo que possa ser investigado mediante as técnicas do método histórico. Portanto, pode-se afirmar que a revelação cristã é histórica, mas não verificável historicamente.
A Hermenêutica
O problema hermenêutico está presente nos três grandes momentos do desenvolvimento do pensamento teológico de Bultmann. No primeiro momento, o da passagem da teologia liberal para a teologia dialética, temos a elaboração de um novo método exegético, o método histórico-morfológico. No segundo, o da passagem da teologia dialética para a teologia existencialista, encontramos o reconhecimento da necessidade de uma “pré-compreensão” do texto por parte do exegeta. No terceiro, o da demitização, temos uma nova e mais radical formulação das funções da hermenêutica.
Segundo Bultmann, o Método Histórico-Morfológico conserva alguns elementos do método histórico-crítico da teologia liberal, mas possui dois elementos novos, muito importantes: um diz respeito à natureza do objeto, o outro ao modo de abordá-lo. Nesse método, o objeto de investigação não é mais o Cristo em si mesmo, mas o Cristo como aparecia para a comunidade primitiva. Para descobrir a representação que a comunidade primitiva tinha dele, o método histórico-morfológico analisa os Evangelhos, separa os elementos que os compõem segundo os vários gêneros literários, depois reagrupa-os novamente e, de tal modo, obtém diversas representações de Cristo, ditadas pelas múltiplas exigências da comunidade primitiva. Desta forma, através da análise de tais representações, procura estabelecer qual era a tradição cristã primitiva.
Verifica-se que logo que se converteu à filosofia existencialista de Heidegger, Bultman apressou-se em protestar contra essa utilização da exegese histórico-morfológica e de qualquer exegese em geral. Constatando que não é possível uma verdadeira compreensão do texto bíblico, como de resto de qualquer texto, sem uma pré-compreensão existencial.
Na pré-compreensão existencial, Bultmann declara que não se pode considerar o texto como uma coleta de informações, nem como uma descrição de algo qualquer, pois não se pode extrair nenhuma relação vital de testemunhos históricos do passado. Para ele, toda interpretação deve basear-se necessariamente numa certa pré-compreensão do objeto em discussão ou em exame. Portanto, é preciso interrogar o texto, onde quem quer compreender deve ter uma disposição de pesquisa, de quem interroga, de quem está pronto para ouvir.
Segundo Bultmann, a essas disposições gerais exigidas para a compreensão de qualquer texto, ele acrescenta no caso da Bíblia também uma disposição especial, relacionada com a existência de Deus. Com isto, enquanto narração do agir divino, a Bíblia implica uma compreensão do significado fundamental da ação de Deus na medida em que ela difere da ação do homem e dos acontecimentos naturais.
Por fim, Bultmann conclui que a pré-compreensão deve ter um caráter existencial. A interrogação fundamental deve ser dirigida a si mesmo, ao próprio eu. O texto trata de mim, é algo pessoal. A mensagem me interpela em minha existência e me impele a escolher novamente essa minha existência e solicita-me uma nova decisão. Desta forma, o encontro existencial com a Palavra de Deus é de importância capital, porque de tal encontro depende a realização sobrenatural do próprio ser.
A Filosofia
Afirma-se que a teologia é por definição inteligência da fé. Sendo que a sua função primária é obter e conservar a inteligibilidade da Revelação, e essa função é cumprida principalmente através da filosofia. Bultmann ressalta que tanto o historiador como o exegeta devem ter uma pré-compreensão do seu objeto, onde toda pré-compreensão implica uma filosofia. Todo intérprete, consciente ou inconscientemente, depende das representações que herdou da tradição; e toda tradição se subordina a uma filosofia, qualquer que seja.
Bultmann ressalta ainda que hoje a filosofia “justa”, aquela que assegura uma pré-compreensão apta a entender o fenômeno histórico do cristianismo e os textos bíblicos, é o existencialismo, pois a filosofia da existência pode oferecer representações apropriadas para a interpretação da Bíblia, porque esta se interessa pela compreensão da existência. Mas não é possível compreender a mensagem bíblica sobre a existência se não se sabe nem mesmo o que significa existir. Sendo necessária uma pré-compreensão da existência Rodolf Bultmann - Demitização da Revelação e Teologia Existencialista.
A Demitização
Bultmann é considerado o símbolo da demitização. Tem como ponto de partida a distinção, na mensagem cristã, entre conteúdo essencial e forma estrutural; o primeiro permanece necessariamente imutável; já a segunda pode variar de geração para geração. A forma estrutural pode ser tríplice: mítica, metafísica e científica.
Considerando a distinção entre conteúdo e forma e a divisão da mentalidade em mítica, metafísica e científica, Bultmann estabelece que os cristãos dos primeiros séculos tinham uma mentalidade mítico-metafísica e, portanto, conclui que eles deram à mensagem de Cristo uma expressão mítica e metafísica.
O alvo de Bultmann ao interpretar os mitos bíblicos era ressaltar a natureza da fé. Nesta ênfase à fé, manteve-se firme nas tradições de Paulo e de Lutero.
Segundo Bultmann, mito é “a descrição do transcendente sob vestes mundanas, das coisas divinas como se se tratassem de coisas humanas”. Os três elementos típicos da descrição mítica são: 1) poderes sobrenaturais; 2) que operam neste mundo; 3) assumindo formas antropo-mórficas.
Para Bultmann, a principal característica da mentalidade metafísica é a de objetivar, ou seja, exteriorizar os nossos estados mentais, reconhecendo-lhes um estado objetivo fora de nós. Uma vez objetivados, tais estados tomam o nome de anjos ou espíritos benéficos, quando se trata de bons impulsos, ou então tomam o nome de demônios, quando se trata de maus impulsos.
Rudolf Bultmann é hoje um referencial par todos os teólogos, filósofos e exegetas que falam de mito ou demitização. No seu ensaio intitulado “Jesus Cristo e Mitologia”, Bultmann oferece uma grande análise e crítica sobre demitização.
Dentro deste campo da demitização, ou, como chama-se um de seus livros, Demitologização, o ponto de partida é a distinção entre a essência e a estrutura das Escrituras Sagradas. Para Bultmann, a essência permanece imutável, enquanto que a forma estrutural da mensagem bíblica pode variar de geração para geração.
Para Bultmann, os crentes do primeiro século tinham uma mentalidade mítico-metafísica, fazendo com que todos os seus textos fossem, e tivessem, um fundo mítico e metafísico. Um exemplo disso, segundo Bultmann, seria a mentalização metafísica que, quando é exteriorizada, tem o nome de anjos quando se trata de um bom impulso, e demônio quando se trata de um impulso mal.
Contextualizando, vemos que Bultmann ao procurar demitizar a mensagem cristã não está querendo eliminar o texto, mas interpretá-lo. Para Bultmann, é impossível e totalmente sem sentido a imagem mítica do mundo nos nossos dias, na realidade em que vivemos. Para ele o homem moderno não pode reconhecer como verdadeiro esta imagem mítica do mundo formulada no passado, sem quase nenhum pensamento científico. Na visão de Bultmann, todos os relatos sobre a plenitude dos tempos ser no momento em que o Filho do Homem vem ao mundo, a idéia e as representações da escatologia, da redenção. Para ele todas estas idéias são ultrapassadas e superadas, não na sua essência, mas na sua estrutura.
Desta forma, “demitizar quer dizer repelir a idéia de que a mensagem bíblica e eclesial esteja ligada a uma visão antiga e ultrapassada do mundo. A tentativa de demitização parte desta idéia essencial: a pregação cristã, enquanto Palavra de Deus pregada em sua ordem e sob o seu nome, não apresenta uma doutrina que seria necessária aceitar seja com um ato de razão, seja às custas de um sacrificium intellectus. A pregação cristã é um kerigma, ou seja, uma proclamação que não se dirige à razão especulativa, mas ao ouvinte tomado na sua ipseidade”.
Concluindo, poderíamos dizer que toda a demitização bultmanniana está baseada na firme crença de que toda a historicidade e todo o sobrenatural faz parte da estrutura, da forma, e nunca da essência da revelação; os cristãos primitivos tinham em função disso uma visão mítico e metafísica, que não deixa de ser científica filosófica natural de seu tempo, e q eu hoje, debaixo de toda uma visão racional, inteligente e capaz de demitizar, deve ser reinterpretar para a preservação da pura mensagem cristã.